O que é a blefaroplastia
As pálpebras são das primeiras zonas do rosto a mostrar a passagem do tempo. A pele fina que as reveste perde elasticidade mais cedo do que a do resto da face, e a gordura que protege o globo ocular vai-se deslocando. O resultado é um olhar que transmite cansaço mesmo quando a pessoa está descansada.
A blefaroplastia é a cirurgia que corrige isso. Remove o excesso de pele, reposiciona ou retira gordura, e devolve ao olhar a definição que tinha. Pode ter finalidade estética, funcional, ou as duas em simultâneo.
Pálpebra superior
O excesso de pele acumula-se e chega a formar uma prega que assenta sobre as pestanas. Quando esse excesso é grande, deixa de ser uma questão estética: passa a limitar o campo visual superior, sobretudo na visão periférica. Nesses casos, a cirurgia é funcional.
Pálpebra inferior
O que predomina são as bolsas — gordura que se projeta para a frente — e, com frequência, a flacidez da pele. Ao contrário do que muita gente pensa, retirar simplesmente essa gordura nem sempre é o melhor caminho: em muitos casos o resultado mais natural obtém-se reposicionando-a para preencher o sulco que se forma entre a pálpebra e a bochecha.
Em muitos casos, na pálpebra inferior nem sequer é preciso deixar cicatriz: a via transconjuntival — feita através da conjuntiva, pelo interior da pálpebra — permite tratar a gordura sem qualquer incisão externa. Quando é necessário abordar também a pele, a cicatriz fica impercetível na pálpebra inferior.
A escolha da técnica depende de uma análise cuidada das necessidades de cada doente. Procuro reposicionar a gordura sempre que isso beneficie o resultado, em vez de a remover simplesmente, e suspender a pálpebra com uma cantopexia quando as pálpebras estão mais flácidas e descaídas.
Quem é bom candidato
A blefaroplastia costuma estar indicada quando existe:
- Excesso de pele na pálpebra superior, com ou sem limitação do campo visual
- Bolsas de gordura na pálpebra inferior que não melhoram com descanso ou hidratação
- Olhar persistentemente cansado, apesar de sono e saúde adequados
- Assimetria entre os dois olhos
- Pele fina e enrugada na região palpebral
Há condições que exigem avaliação prévia mais cuidada e que podem alterar o plano cirúrgico: síndrome do olho seco, alterações da tiroide, glaucoma, diabetes mal controlada, hipertensão não estabilizada e distúrbios de coagulação.
Um ponto que vale a pena esclarecer em consulta: nem todas as queixas da região dos olhos se resolvem com blefaroplastia. Quando a sobrancelha está descida, o excesso de pele na pálpebra superior é consequência e não causa — e nesse caso o procedimento indicado é o lifting de sobrancelhas, isolado ou combinado. Quando o problema são as olheiras pigmentadas ou o sulco lacrimal, a resposta pode passar por preenchimento em vez de cirurgia.
A técnica cirúrgica
Na pálpebra superior, a incisão é feita na prega natural da pálpebra. Uma vez cicatrizada, fica escondida quando o olho está aberto. Remove-se o excesso de pele e, quando necessário, uma pequena porção de músculo e de gordura.
Na pálpebra inferior, há dois caminhos. A via transconjuntival, feita pelo interior da pálpebra, não deixa qualquer cicatriz visível e é a escolha quando o problema é apenas gordura, sem excesso de pele. A via subciliar, imediatamente abaixo das pestanas, permite tratar também a pele e o músculo, e a cicatriz fica praticamente impercetível.
Procedimentos associados
Em muitos casos gosto de associar a blefaroplastia à lipoenxertia. Retirar o excesso resolve metade do problema; a outra metade é o volume que se perdeu com os anos. Devolver esse volume recupera a estrutura da face e, porque a gordura enxertada também melhora a qualidade da pele, o resultado é mais harmonioso do que o que se obtém tratando apenas as pálpebras.
Alguns casos beneficiam ainda de peeling, igualmente para melhorar a qualidade da pele — sobretudo quando existem rugas finas na região palpebral, que a cirurgia por si só não corrige.
Recuperação, passo a passo
Primeiras 48 horas. Edema e alguma equimose são a norma, não a exceção. Aplicação de frio de forma regular e cabeceira elevada durante o sono reduzem bastante os dois. Desconforto ligeiro, controlado com analgesia simples.
Dias 3 a 7. O inchaço começa a ceder. Os pontos são removidos entre o quinto e o sétimo dia. A maioria das pessoas já se sente confortável em casa e a fazer vida normal dentro de portas.
Semana 2. A equimose esbate-se e, com maquilhagem, torna-se disfarçável. É a altura em que a maior parte dos doentes regressa ao trabalho.
Semanas 3 a 6. Retoma progressiva do exercício físico, a partir da terceira semana. As cicatrizes ainda estão rosadas.
Meses 3 a 6. As cicatrizes clareiam e o resultado estabiliza. É neste ponto que se avalia o resultado final.
Nas primeiras duas a três semanas convém evitar esforço físico intenso, exposição solar direta sem proteção, lentes de contacto e tabaco, que atrasa de forma significativa a cicatrização.
Riscos e complicações
Nenhuma cirurgia é isenta de risco, e uma página que diga o contrário não merece confiança.
As situações mais frequentes são temporárias: edema e equimoses, secura ocular durante algumas semanas, sensibilidade à luz, visão turva nos primeiros dias e assimetria transitória enquanto o inchaço não resolve por completo.
Menos frequentes, mas possíveis: infeção, cicatrizes hipertróficas, ectrópio — a pálpebra inferior a afastar-se do globo ocular, geralmente por remoção excessiva de pele —, alteração da sensibilidade e necessidade de retoque.
A escolha do cirurgião pesa aqui mais do que em quase todo o resto. A margem de erro na pálpebra é de milímetros: retirar pele a mais tem consequências difíceis de corrigir, e retirar a menos deixa o problema por resolver.